Terça, 25 Setembro 2018

PORTAL DO SERVIDOR

PORTAL DO SERVIDOR

HORÁRIO DE EXPEDIENTE

 


 

NO PERÍODO DE

01 DE MARÇO DE 2018

A

31 DE OUTUBRO DE 2018



HORÁRIO DE ATENDIMENTO

DAS 09H ÀS 17H

 


 

Portal da Transparência

TELEFONES ÚTEIS

 

(51) 3664 - 0011

Prefeitura Municipal

(51) 3664 - 0121
Banrisul

193 
Bombeiros

(51) 8033 - 8791 [ Vivo ]
(51) 8953 - 6264 [ Claro ]
Brigada Militar
Dom Pedro de Alcântara

(51) 3667 - 1377
Brigada Militar - Três Cachoeiras

(51) 3664 - 0001 
Câmara Municipal

(51) 9933 - 6289 
Companhia de Água e Esgoto

(51) 9935 - 0816 
Conselho Tutelar

(51) 3664 - 0385 
Correios

(51) 3664 - 1100 
Hospital de Pronto Socorro - HPS

(51) 3664 - 0126 
Polícia/Delegacia

(51) 3664 - 0258 
Rodoviária

A passagem de D. Pedro I pelo Passo de Torres, Torres, Arroio do Sal, Tramandaí e Santo Antônio da Patrulha

Ao transitar por Torres em 1826, o Imperador D. Pedro I não dormiu na casa do alferes Manoel Ferreira Porto Filho na noite de 5 para 6 dezembro, conforme conta a História do município e da região há 70 ou 80 anos. O Imperador pernoitou na Estância do Pacheco que se localizava junto à Estância do Meio, em área que hoje compõe o município de Arroio do Sal. O que antes era uma tese ou pesquisa (manifestada por mim no Volume I do livro HISTÓRIA - TORRES, Aspectos e no evento Raízes de Palmares/Capivari do Sul) agora é conclusão e passa a ser História dessa região do Litoral e do Brasil. Através de documentos e registros, depois de três anos levantada a questão, consegui prová-la. O fato é esse. D. Pedro viajou ao Sul do Brasil na Guerra Cisplatina que havia iniciado em 1825. A área que havia sido tomada pelo Brasil em 1817 estava se revoltando e, com o apoio da Argentina, buscando sua independência, realmente obtida, transformando-se na República Oriental do Uruguai. O Brasil tinha um enorme contingente de soldados, armamentos e navios na bacia do Rio da Prata. Dos 10 mil praças que compunham o Exército àquela época, seis mil estava entre Montevidéo, Colônia de Sacramento, Maldonado e na fronteira. 96 navios, entre belonaves de guerra e transportes. O Império gastava muito dinheiro nessa guerra que, na verdade, era uma fantasia para D. Pedro. Ele tinha sonhos de conquistador, pois seu ídolo era Napoleão Bonaparte, que fora casado com Maria Louise, a irmã de sua mulher, a princesa Leopoldina. Em seu quarto tinha uma enorme pintura com os símbolos napoleônicos. Mas também não queria perder esse importante pedaço de terras que havia sido conquistado por seu pai, D. João VI. O Exército e a Marinha brasileiras na bacia do Prata era uma bagunça generalizada. De todos os tipos e jeitos. Na Marinha, por exemplo, os navios eram inadequados para navegar no estuário. Grandes, pesados, com tombadilho alto próprio para navegação em alto mar, não conseguiam se aproximar das margens, por onde navegavam as menores e ágeis embarcações argentinas. Isso impunha derrotas à Marinha Imperial que custavam vidas e prejuízos materiais. Havia ainda os erros estratégicos de batalhas, as incompetências entre o oficialato. No Exército, despreparo, improvisação, falta de ânimo nas tropas e doenças, além de soldo atrasado. A soldadesca estava com atraso de 5 meses no pagamento, mas os oficiais em dia; soldados morriam de desinteria, febre, pneumonia; faltava munição, armas, calçados, logística. Faltava também ânimo e motivo para lutar. Igual à Guerra dos Farrapos dez anos depois, enquanto os platinos lutavam por suas terras e famílias, os soldados brasileiros – muitos deles incorporados à força – não sabiam o porquê de estarem ali. Para tentar reverter todo esse quadro, D. Pedro nomeou o Visconde de Barbacena para Comandante do Exército no Sul do Brasil.

E decidiu viajar ao teatro de operações de guerra “para ver tudo com meus próprios olhos”, segundo expressou. Ele também aproveitava para sair um pouco da Corte onde fervilhavam as fofocas e comentários sobre seu caso amoroso com Domitila de Castro e Melo, a Marquesa de Santos. Com isso, “ganhava um tempo!” Francisco Gomes da Silva, o “Chalaça”, seu maior amigo e fiel escudeiro, e que o acompanhou na viagem ao Sul, resumiu assim a Guerra Cisplatina em suas Memórias: “A guerra com a República de Buenos Aires tornava-se eterna. Ainda nenhuma contenda entre dois povos foi mais destituída de resultados possíveis do que esta. Parece que o único objetivo das partes beligerantes era a destruição...As negociações para assentar a paz entre as duas nações falhavam sempre; e as operações das tropas na verdade pareciam dirigidas para nada se concluir. As despesas cresciam; os povos queixavam-se, e com razão; e S.M. vendo quanto tempo até então se havia perdido, determinou ir ver por seus próprios olhos o teatro de guerra...toda a Nação concebeu vivas esperanças desta expedição, que se reconhecia empreendida pelo Imperador com o fim de acabar com o flagelo da guerra, que tanto afligia o Brasil.” Ao pesquisar toda essa trajetória – e continuo pesquisando atualmente – encontrei uma série de erros, versões ou distorções históricas que não são o foco desse Capítulo. Vou relatá-las num livro que estou produzindo específico sobre essa incrível, maluca e única viagem de D. Pedro ao Sul do Brasil, em 1826. O foco aqui é a passagem por Torres, Arroio do Sal e região em dezembro de 1826. A fonte principal da pesquisa é a carta que D. Pedro escreveu à Imperatriz Leopoldina em 8 de dezembro de 1826 desde Porto Alegre (e aí existe um equívoco histórico, pois muitos historiadores e pesquisadores até de renome afirmam que ele chegou à Capital da Província nesse dia – 8 de dezembro -, mas a chegada correta foi em 7 de dezembro). Nessa carta ele relata a situação do Governo da Província e anexa um Itinerário de Jornada. Esse “Itinerário” registra os principais momentos da cavalgada entre N.S. do Desterro (Florianópolis) até Porto Alegre, desde a chegada na Baía das Canas Vieira em 30 de dezembro. Trata-se, portanto, de uma fonte primária incontestável, pois traz a assinatura do Imperador. Outros documentos e registros paralelos ajudam a entender essa trajetória e toda a situação. O que nos interessa aqui é a passagem de D. Pedro e sua comitiva por Torres e Arroio do Sal. Em seu Itinerário ele relata que na noite de 4 para 5 de dezembro dormiu numa barraca de sapé abandonada junto ao Arroio Grande que se situava na Sesmaria dos Rodrigues, a cerca de 17 ou 18 quilômetros da foz do Mampituba em área que se tornaria município do Passo de Torres. Antes D. Pedro havia passado por diversas localidades catarinenses à beira-mar, incluindo Laguna e Araranguá. Em Araranguá ele foi à procura do “tenente Machado” (não se descobriu ainda quem é e porque foi ter com ele) antes de continuar viagem. Às 5 horas e ¾ do dia 5 de dezembro, uma terça-feira, D. Pedro montou a cavalo, deixou a barraca de sapé e saiu do mato em direção à praia, onde chegou 15 minutos depois. Portanto, a referida barraca – que certamente era de serventia a pescadores – ficava perto da beira-mar. Às 6 horas e 30 ele encontrou “um oficial do Batalhão de São Paulo que vinha com ofícios”. Era o tenente coronel Francisco de Paula Soares, comandante do Baluarte Ipiranga e Inspetor-Chefe da Colônia Alemã das Torres. Meia hora depois a comitiva chegou às margens do Mampituba. Ocorreu a travessia e às 8 horas D. Pedro e Comitiva chegaram a Torres, provavelmente ao Baluarte Ipiranga, conforme relato de Paula Soares. Ali a primeira ação foi de lavar-se. A seguir tomou café-damanhã (no Itinerário ele chama de “janta”, mas pelo horário era o caféda-manhã). O relato seguinte é que às 2 horas e ¼ ele montou a cavalo e às 7 horas e ½ chegou à Estância do Pacheco “e ali dormimos” (expressão dele no Itinerário). Portanto, está bem claro que D. Pedro não dormiu em Torres conforme registrava a História até então. Muito menos na casa do alferes Manoel Ferreira Porto Filho. Importante destacar que ocorreram a salva de 101 tiros de canhão do Baluarte Ipiranga e uma farta recepção gastronômica ao Imperador. Não consta do Itinerário de Jornada, mas das “Memórias...” do tenente coronel Paula Soares escritas em 1844 a pedido do Visconde de São Leopoldo para fazerem parte das próprias “Memórias...” do Visconde. Conforme relato de Paula Soares, os disparos foram efetuados à chegada do Imperador e devem ter durado um bom tempo, pois eram quatro os canhões do Baluarte. Sendo assim, é de se supor que os tiros fossem divididos, cabendo 25 a cada um deles. Se computado o tempo mínimo de 4 a 5 minutos entre o disparo e a recarga, são no mínimo duas horas disparando. Imagine o que isso representaria de barulho para a pacata Torres com não mais de 1.200 almas morando na região! Com relação à gastronomia, Paula Soares explica que uma grande safra de peixes ocorrida em 1825 ajudou-o na recepção ao Imperador um ano depois: (mantida a grafia original) “...e os moradores do rio ariranguá aos q.es aranxei no lugar denominado Potreiro junto a barra do Rio Mompituba em 1825, onde fizerão uma grande pescaria com a qual muito fartavão efetivam.e os habitantes do lugar com Peixe fresco e com azeite do mesmo, sendo o seco, ou o Salgado remetidos em Carretas para o mercado de Laguna. Não forão perdidas as remessa assima relatadas como o tempo depois o justificou; sem Ella eu me veria bastante embaraçado p.a receber dignam.te naquele Prezídio o Augusto fundador do Impr.o e graças a previdência do Exm.o S. Leopoldo no remarcavel e glosioso dia 5 de Dezembro de 1826 no Baloarte Ypiranga das Torres.”

ESTÂNCIA DO PACHECO
A partir dessa constatação, passei a pesquisar onde ficava a referida Estância do Pacheco. Não há qualquer referência a ela nos registros históricos da região (ao menos descobertos até agora). Mas existem citações e referências aos Pacheco. No livro “Batizados e Casamentos da Paróquia de São
Jornalista Mano Lewis/Prefeitura Arroio do Sal
“Cavalgada Histórica” resgatou a trajetória de D. Pedro I entre Torres e a Estância do Pacheco. Domingos das Torres”, do pesquisador Marco Antônio Velho Pereira, existe o registro de número 113 que aponta o batizado de Joaquina, em 30 de maio de 1830. Os avós maternos são Manoel Pacheco e Maria Cardoso de Jesus, ambos procedentes de Laguna, e pais de Ana Cardoso de Jesus. Portanto, para ser avô Manoel deveria ter entre 35 e 40 anos, idade suficiente para ser proprietário de terras. Eram procedentes de Laguna/SC e lá pesquisei junto à Casa Candemil, ao Arquivo Histórico e mesmo ao Cartório do Registro de Pessoas. Não há nenhum registro. No livro de “Batizados...”, porém, há vários registros de batizados da Família Pacheco em datas posteriores. Também na Guarda e Registro de Torres a partir de 1827 existem várias anotações da passagem de Manoel Pacheco dos Santos indo e voltando de Laguna. A Guarda tinha um Livro de Registro de passagens de pessoas, animais e carretas, com o nome, quantidade de pessoas ou animais, a data e o valor do pedágio. Manoel Pacheco aparece em vários deles. Mais uma prova da existência dos Pacheco na região e seu vínculo com Laguna. Mas o documento definitivo que comprova a existência da Família Pacheco na área que seria o município de Arroio do Sal está no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e foi relacionado pela historiadora Vera Lúcia Maciel Barroso no trabalho “De Santo Antônio da Patrulha a Torres – Relações Litorâneas (1809 – 1857)” apresentado no Raízes de Torres 1995. Nele, Vera Lúcia apresenta uma relação dos moradores na Estância do Meio, em 1846. Lá está o nome de Manoel Pacheco dos Santos. Portanto, ele era morador na Estância do Meio ou próximo a ela e certamente seria o proprietário da “Estância do Pacheco” onde D. Pedro I pernoitou. Para completar, em setembro de 2014 o prefeito de Arroio do Sal, Luciano Pinto da Silva, motivado por mim com as pesquisas e a possibilidade concreta de D. Pedro I ter pernoitado no município, promoveu uma “Cavalgada Histórica”. Desde a Praia da Guarita até onde se completassem as 5 horas de cavalgada relatadas por D. Pedro em seu “Itinerário de Jornada.” Com tal atitude o prefeito Luciano quis reforçar as pesquisas sobre a passagem e o pernoite do Imperador na região (em Arroio do Sal), apropriando assim, para o município, esse momento histórico.

Fizeram parte da “Cavalgada”, além do prefeito, o vereador José Deoclides Nunes da Silveira, o secretário municipal de Turismo, Mateus Coelho Ribeiro, a Família do ex-Patrão do CTG Rincão da Estância, Celso Nunes, sua esposa, a professora Andréia Nunes (exsecretária Municipal de Educação e Cultura), os filhos Miguel e José Henrique Santos Nunes. A mais jovem integrante da “Cavalgada” foi Andressa da Silva Padilha, de apenas 12 anos, acompanhada por seu pai, Eracy Padilha. Ainda presentes no início da jornada o delegado de Polícia e pesquisador Ari Raupp Vieira, a fotógrafa Vana Rodrigues e a diretora do Jornal Diário Gazeta, Angelita Vieira. Depois de 5 horas – e mesmo enfrentando chuva e vento Sul – a “Cavalgada Histórica” chegou ao Centro de Arroio do Sal, junto ao arroio que deu nome à cidade. Lá estavam a recepcioná-la 1ª Dama Gilséia de
Foto do autor no Arquivo Histórico do RS, Fundo Militares.
Registro do Pedágio de Torres em 1827 e nele consta varias vezes o nome de Manoel Pacheco indo e vindo de Laguna em direção a Torres. Mais uma prova da existência da Família Pacheco na região.

Oliveira, a secretária municipal de Educação e Cultura, Iara Schaly Melo, o secretário de Administração, Jucilei Pereira da Silva, além do jornalista Mano Lewis e eu. Portanto, somando os documentos existentes (fontes primárias) e os demais indícios, afirma-se que a Estância do Pacheco ficava junto à Estância do Meio, futuro Arroio do Sal. Outras evidências são relatadas por August Saint Hilaire em seu livro “Viagem ao Rio Grande do Sul” em que registra a existência, em 1820, da Estância do Meio e do Sítio do Inácio, junto à Lagoa dos Quadros. D. Pedro também afirma em seu Itinerário que depois de sair da Estância do Pacheco, às 5 horas e ¼ do dia 6 de dezembro, chegou às 8 horas no Sítio do Inacinho. O Sítio nada mais era, conforme Saint Hilaire, do que uma extensa área de terras e uma choupana onde morava um preto velho responsável por receber a correspondência que vinha de Rio Grande, Porto Alegre ou Viamão e destinava-se a Torres ou Laguna/SC. Também cuidar algum gado ali pastando. O proprietário Inácio José de Araújo (era dono de vasta extensão de terras próximo ao mar), morava “do outro lado do lago” (era assim que os moradores à época denominavam a Lagoa dos Quadros) onde havia plantações de mandioca, milho, etc. Ficava mais ou menos onde se situa o município de Terra de Areia.

ESTÂNCIA DO PEIXOTO

Os mesmos equívocos históricos ocorrem em Santo Antônio da Patrulha, pois o Itinerário de Jornada do Imperador nada registra do que a História local relata. D. Pedro diz que no dia 6 de dezembro, às 4 horas e ¾, chegou à Estância do Peixoto “e ali ficamos” (expressão dele). Portanto, nada do que a História de Santo Antônio da Patrulha apresenta até agora com relação à passagem de D. Pedro é correto. Nem a Comitiva chefiada pelo médico Marcos Cristino Fioravante, presidente da Câmara de Vereadores de Santo Antônio da Patrulha, que teria ido recepcioná-lo em Torres; nem o Piquete de cavalarianos que recebeu o Imperador na entrada da cidade, inclusive com a relação de seus componentes; ou a recepção ao Imperador na Câmara de Vereadores; a Fonte de onde foi retirada água para servi-lo (e que existe até hoje, sendo local histórico e turístico da cidade); seu pernoite na residência de Fioravante e os móveis da casa, e a missa rezada pelo padre José Ricardo Novaes na Igreja Matriz na manhã do dia 6. Todo esse registro histórico não existe, pois D. Pedro diz que chegou à Estância do Peixoto “e ali ficamos”. No dia seguinte, às 5 horas e ½ montou a cavalo e já às 7 horas e ½ estava na Estância do Quilombo em direção à Porto Alegre, onde chegou às 7 horas e ¼ do dia 7 de dezembro de 1826. Conforme minhas pesquisas, existem em Santo Antônio da Patrulha duas áreas que podem ser a Estância do Peixoto daquela época. Uma que se localiza ao Sul da Lagoa dos Barros, a cerca de 20 quilômetros da barra do Tramandaí (barra a qual D. Pedro relata sua travessia), pertencente a Francisco da Silveira Peixoto, ao qual o médico Fioravante tinha laços de parentesco. A outra área também denominada Estância do Peixoto e igualmente pertencente à Família Peixoto, só que a outro ramo (os irmãos José da Silveira Peixoto e Francisco da Silveira Peixoto, homônimo do anterior). Localizava-se em direção ao “Caminho Real” que levava a Porto Alegre, a cerca de 8 quilômetros da “cidade baixa” de Santo Antônio da Patrulha e atravessada pela RS 030 – antiga estrada que fazia o acesso de Porto Alegre às praias. Ali havia (entre 1810 e 1850) um curral que recebia todo o gado que transitava pela região para descanso e alimentação. Era um ponto de referência e provavelmente foi nessa Estância do Peixoto onde o Imperador pernoitou. Caberá aos historiadores e pesquisadores de Santo Antônio da Patrulha tentar definir esse enigma e corrigir as informações da História local com relação à passagem do Imperador. Mesmo enfrentando resistências e contrariedades naturais a qualquer mudança. BARRA DO TRAMANDAÍ Outra constatação do “Itinerário de Jornada” é quanto à passagem de D. Pedro pela barra do rio Tramandaí. Ela ocorreu dia 6 de dezembro, depois que ele deixou o Sítio do Inacinho. D. Pedro diz que chegou ao rio Tramandaí às 12 ½ e que o atravessou seguindo para Porto Alegre às 13 horas e ½ . Portanto, levou 1 hora para fazer a travessia. Esse curto tempo inviabiliza uma história (ou lenda) local de que ele teria sido recepcionado com um lauto almoço pela senhora Maria Bernarda, pessoa abastada e que morava numa casa de pau-apique ao lado da enorme figueira centenária que ainda existe no centro de Tramandaí. Sabedora de que o Imperador por ali iria passar, a tal senhora foi a Conceição do Arroio (Osório) abastecer-se do que melhor havia em alimentação para recepcioná-lo. Também existe a lenda local de que na travessia o Imperador deu uma moeda de ouro a um negro responsável pela passagem e que com esse dinheiro ele teria sustentado sua família por muitos anos. As lendas existem e resistem à frieza dos fatos por serem lendas. Mas o registro da recepção festiva não se concretiza pelos fatos narradas pelo próprio Imperador: “...saimos às 9 ½ [do sitio do Inácio] chegando ao Rio Tramandaí às 12 ½ atravessamolo, e seguimos p Porto Alegre à 1 ½ , chegamos à Estância do Peixoto às 4 ¾, e ali ficamos.” Esse, portanto, é o relato histórico da passagem de D. Pedro e sua comitiva pela região de Passo de Torres/SC até Santo Antônio da Patrulha, entre 4 e 7 de dezembro de 1826. Através dele se descontrói toda uma “História” contada na região há 70 ou 80 anos por vários historiadores e pesquisadores, como Aurélio Porto, Ruy Ruben Ruschel, Dante Laytano, Carlos Hunsche, Juca Maciel, entre outros. E replicada em sites e blogs – principalmente de Prefeituras, Câmaras de Vereadores, agências de Turismo e Viagem. Em História não existem erros nem verdades permanentes. Mas há determinadas informações que são originárias de fontes primárias e essas não têm contestação. O Itinerário de Jornada de D. Pedro I é uma dessas fontes primárias incontestáveis. Se a História da região vem sendo contada de forma equivocada há muitos anos é outra situação. Na condição de Jornalista que sou, prefiro ficar com Éric Hobsbawn que afirma ser função do historiador [que ainda não sou!] “lutar contra a mentira” [no caso não chega a ser mentira, mas uma desinformação ou distorção do que realmente ocorreu, sabe-se lá porque motivos]. E com Roger Chartier ao escrever que abandonar a verdade é “deixar o campo livre a todas as falsificações e falsidades que, por traírem o conhecimento, ferem a memória.” Deixemos de lado o preguiçoso e cômodo control C, control V da internet que a tudo copia, replicando e “virulando” textos, e nos dediquemos ao atrativo, desafiador e prazeiroso campo da pesquisa de campo, em busca de documentos, fontes, formulando teses, hipóteses e teorias. Mesmo que isso ponha por terra histórias relatadas há 70, 80, 90 ou 100 anos.

_____________________________________ FONTES: Itinerário de Jornada, documento anexo à Carta de D. Pedro I à Imperatriz Leopoldina em 8/12/1826, Museu Imperial de Petrópolis/RJ; Memórias do Conselheiro Francisco Gomes da Silva, “O Chalaça”, Editora Souza, 1959; Viagem ao Rio Grande do Sul, Auguste Saint Hilaire, Martins Livreiro/Estante Riograndense União Seguros; Paróquia São Domingos – Formação Étnica e Primeiras Famílias, Marco Antônio Velho Pereira; República Catarinense, Henrique Boiteux, Xerox do Brasil/1985; Torres Origens, Ruy Ruben Ruschel, edição Gazeta/1995; Fernando Lauck, Acadêmico de História, Santo Antônio da Patrulha/2014; Renato José Lopes, IHG Santo Antônio da Patrulha/2014; Santo Antônio da Patrulha, Re-Conhecendo sua História, EST/2000; depoimento de Luciano Gomes Peixoto sobre a Família Peixoto a Nelson Adams Filho; História do Brasil, Alberto Rangel; Brasil Império, 1º Reinado, Osvaldo Rodrigues Cabral, Vol I; Memórias do Visconde de São Leopoldo, compiladas e ordenadas pelo Conselheiro Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo, do IHGRJ, de agosto de 1873 – colaboração do historiador Paulo Rezzuti; Reminiscências de Minha Terra/Santo Antônio da Patrulha, Juca Maciel, edição EST/1987; Titília e o Demonão, Paulo Rezzuti, Geração Editorial 2014/SP; Raízes de Torres 1995, “De Santo Antônio da Patrulha a Torres, Relações Litorâneas 1809 a 1857”, Vera Lúcia Maciel Barroso, EST/1995; Casa Candemil, Cartório de Registro de Pessoas e Arquivo Histórico/Laguna/SC/2014; Tramandaí – Terra e Gente, Leda Saraiva e Sonia Purper, 2ª Edição 1996; O Lavrador e o Sapateiro, Memória, Tradição Oral e Literatura, Rodrigo Trespach, EdiPUCRS 2013; “Memórias de Torres”, Francisco de Paula Soares Gusmão, Revista do Arquivo Público do RS/1924; fotos jornalista Mano Lewis, Prefeitura de Arroio do Sal/2014; fotos do autor no Arquivo Histórico do RS – Fundo Militares.

Joomla Template Developer
Joomla Template Developer

Custom Joomla Templates
Custom Joomla Extensions

Instant WordPress Themes
Instant WordPress Themes